domingo, novembro 07, 2010

Um Olhar do Paraíso

Tudo o que poderia dar errado deu.

Depois de comandar super produções de abocanhar vários Oscars com a trilogia O Senhor dos Anéis e com King Kong, Peter Jackson tentou voltar a um gênero mais intimista, que o havia consagrado na Nova Zelândia com o surpreendetemente tocante Almas Gêmeas. Mas, dessa vez, com um resultado catastrófico. Um Olhar do Paraíso é catastrófico.

O tema, de início, já era complicado de se tratar, porém a delicadeza com que o livro original conseguiu retratar o caso de estupro e assassinato de uma garota de 13 anos somada à delicadeza de Peter Jackson em Almas Gêmeas, além dos grandes nomes do elenco, prometiam um grande filme.

O que eu assisti foi repulsivo. Total e completa repulsa, já no final do filme na sua tentativa de “final feliz” o que ele conseguiu despertar em mim foi nojo. Eu não vou revelar o final, para você masoquista o suficiente para ir assisti-lo, mas a maneira que ele foi construido parede ter sido de improviso.

Ficou a sensação de que a ordem da montagem foi alterada de última hora para atender algum desmando do estúdio para uma conclusão mais feliz. Pelo menos é essa impressão que ficou na minha cabeça, pois não consigo imaginar como uma pessoa poderia efetivamente escrever aquilo.

O resto do filme é todo descartável, não só o fim. Jackson se perdeu em efeitos especiais e esqueceu de contar a história. O roteiro como um todo, a fotografia, e a trilha sonora são todos desastrosos e mais contribuem para atrapalhar do que para construir o filme.

Os atores fazem o que podem com um roteiro ruim e raso e um diretor mais preocupado com a tela verde do que em dirigi-los. Mesmo a caracterização clichê e ridícula do vilão da história consegue funcionar pela força da atuação por debaixo de tanto equívoco.

Um Olhar do Paraíso poderia mudar seu nome para “Um Olhar do Inferno” e ser lembrado apenas como exemplo de como não se fazer um filme.

2/5

Nosso Lar

Antes de qualquer coisa eu devo dizer que eu sou espírita. E, sendo espírita, minha visão sobre o filme pode ser parcial, mas sem deixar de ser crítica. A história do homem ateu que morre e se encontra no pós-vida me tocou mais que ao espectador comum, e as cenas do “purgatório” foram particularmente perturbadoras. Mas eu não deixei de ver o filme como ele é, e ele é apenas mediano.

A mega produção é bastante eficiente tecnicamente, os efeitos especiais nunca deixam de serem convincentes e você acredita que tudo aquilo pode ser real. Mas as qualidades param por aí.
A trilha sonora feita por Philip Glass (indicado ao Oscar pela música de As Horas) chega a ser irritante de tão intrusiva. Parece que os produtores quiseram tanto fazer valer o dinheiro gasto na contratação de um compositor de renome internacional que acabou exagerando. Já as atuações são um misto de padrão Globo com canastrice, mas que acabam funcionando dramaticamente.

Isso não quer dizer que o filme não funcione ou que seja ruim, ele não é. A história funciona e comove. Apesar das falhas no desenvolvimento da trama, um problema recorrente em adaptações literárias que acabam ficando episódicas e sem rítimo. Algumas sequências parecem ter sido jogadas aleatoriamente no filme, sem acrescentar absolutamente nada, como parte sobre a segunda guerra mundial. E o tom doutrinário, que é, afinal, o objetivo do livro espírita, acaba não ajudando muito.

O objetivo do livro espírita é evangelizar e mostrar para alguém que já segue a religião como é a da vida pós-morte e como é o funcionamento da doutrina na prática. Aí o fato de eu ser espírita acaba ajudando na crítica, pois eu sei o quão melhor a história poderia ter sido contada, mas não foi devido às falhas no desenvolvimento do roteiro.

Mas, no fim, acho que o principal ponto positivo do filme é que, mesmo sendo um filme essencialmente religioso consegue o ser sem soar moralista ao extremo. O filme inclusive chama atenção pra esse fato na fala de uma personagem que reclama do tom moralista das pessoas em Nosso Lar. Mas isso surge mais como uma ironia do que como um fato real, existem filmes por aí, mesmo não sendo abertamente religiosos, que conseguem ser muito mais, chegando ao ponto do ofensivo. E digo isso de filmes americanos de grande bileteria e nem um pouco religiosos.

3/5

terça-feira, novembro 02, 2010

A Mentira do Mapinha Azul e Vermelho

Mesmo sem os votos do norte e nordeste a Dilma ganharia... Esse mapinha vermelho e azul é muito simplista e leviano até. Onde o Serra ganhou ele ganhou por uma margem muito apertada. Muito apertada. Só a vantagem que a Dilma teve em Minas e no RJ já seriam suficientes pra ela ultrapassar a vantagem que o Serra teve em São Paulo, Centro-Oeste e em todo o Sul, onde a vantagem do Serra foi maior, e ainda sobravam 300 mil votos de vantagem...

O que deu a vitória da Dilma não foi o nordeste, o nordeste só ampliou a vantagem. Mesmo porque não tem como o nordeste eleger ninguém, o NE inteirinho tem o tamanho eleitoral só de São Paulo, se São Paulo tivesse votado só no Serra e o nordeste inteiro só na Dilma o Serra levava. Não foi o que aconteceu, a Dilma teve uma votação forte e consistente em todo o Brasil. Em todos os estados e regiões Dilma teve uma votação muito alta. Ao contrário do Serra que só foi bem votado no Sul.
Essas manifestações são consequência do clima belicoso e criminoso que foi colocado na campanha de ódio e medo que o Serra fez. E a mídia apoiou, e continua apoiando quando divulga esse tipo de dado como se a Dilma só tivesse ganhado no nordeste.
Esse tipo de coisa é pra tentar esconder que o Serra teve um desempenho terrível mesmo em São Paulo e o fato de ele não ter conseguido um único eleitor a mais do que os eleitores naturalmente psdbístas. Pra comparar o Serra teve, no segundo turno, praticamente a mesma votação que o Alckmin teve no primeiro turno! Tanto no eleição pra presidente anterior, quanto na de governador desse ano.
O PSDB está estagnado onde era forte e perdendo espaço no resto do país todo. A única salvação talvez fosse o Aécio, que já está de saco cheio do PSDB, foi contra o Serra, mesmo quando parecia apoiar, e quer cair fora o mais rápido possível (Apesar do problema pro país com crescimento do Aécio, canalha, que censura a imprensa mineira, impede a divulgação de que é viciado em cocaína, a ponto de ter várias overdoses, pede cabeça de jornalistas, enfim, quase a mesma coisa que o Serra, com o agravante da cocaína).
Enquanto o DEM perdeu quase tudo, o que ele ganha mudando de nome a cada 2 anos (ARENA, PFL...) ele perde de novo no próximo escândalo de corrupção. Na Bahia, ACM Neto, amargou a terceira colocação na eleição pra prefeito de Salvador 2 anos atrás.
O Nordeste vota em peso no PT porque nínguém nunca olhou pra lá, nunca. Vivia estagnado e na miséria, enquanto hoje as taxas de crescimento estão na mesma faixa do crescimento chinês. Desenvolvimento econômico, emprego, erradicação da miséria e elevação social contra estagnação, desemprego, miséria, mortalidade infantil, desnutrição e morte da era ACM/PFL/DEM. Por que diabos eles iriam votar neles de novo?

E pra quem quiser ler mais sobre o assunto, aqui tem uma excelente análise sobre os resultados: http://politicando.blog.br/?p=1222

sábado, outubro 02, 2010

+ Filmes ou The Dark of the Matine

61 filmes em 3 meses e 169 no total. Só um pouquinho melhor que os dois primeiros trimestres.

Flashback:

"Os filmes estão na ordem em que foram assistidos [...] e acompanhados de uma classificação que vai de uma (*) a cinco (*****) estrelas. Essa classificação é apenas um indicativo de quanto eu gostei do filme, não é nem de longe uma análise. Alguns filmes vem acompanhados do símbolo #, isso quer dizer que foi a primeira vez que eu o assisti, e os que possuem refilmagens ou mais de uma versão estão seguidos da data da versão assistida. Os filmes que eu assisti mais de uma vez esse ano foram colocados apenas uma vez."


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Gattaca - Experiência Genética *****
Cidade das Sombras *** #
Desafiando Gigantes * #
À Procura da Felicidade ***
Nunca Mais * #
O Exterminador do Futuro - A Salvação ***
Shrek Para Sempre *** #
Alice no País das Maravilhas (1951) ****
Os Coletores *** #
Milk - A Voz da Igualdade *****
O Rei Leão ****
Predadores *** #
Entre Irmãos **** #
In Bruges ***** #
Contato *****
Salt ** #
A Origem **** #
Tron - Uma Odisséia Eletrônica * #
Psicose ***** #
A Rosa Púrpura do Cairo * #
O Nevoeiro **** #
Em Busca de Uma Nova Chance (The Greatest) **** #
Os Simpsons - O Filme ***
O Escritor Fantasma ***** #
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban *****
Harry Potter e a Ordem da Fênix ****
Diário de uma Paixão ****
Bem Me Quer, Mal Me Quer ** #
Quatro Amigas e um Jeans Viajante ***
Quatro Amigas e um Jeans Viajante 2 ** #
9 - A Salvação * #
Appaloosa - Uma Cidade Sem Lei *** #
Os Mercenários ** #
Panorama do Cinema Brasileiro ** #
Nosso Lar ** #
Tropa de Elite ****
À Deriva **** #
O Resgate do Soldado Ryan *****
Limite (1931) ***
Anjos do Sol *** #
This Is Spinal Tap **** #
Do Luto à Luta *** #
O Fantasma do Futuro *** #
Linha de Passe *** #
Jogo de Cena **** #
Feliz Natal **** #
Two Men and a Wardrobe (Dwaj ludzie z szafa) (Curta) **** #
When Angles Fall (Gdy spadaja anioly) (Curta) ***** #
Charlotte et son Jules (Curta) * #
O Bandido Da Luz Vermelha ** #
O Pagador de Promessas ***** #
A Festa Da Menina Morta **** #
Paisagem na Neblina ***** #
Apenas Uma Vez *****
O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro *** #
Santiago **** #
Deus e o Diabo na Terra do Sol **** #
O Padre e a Moça ***** #
Os Famosos e os Duendes da Morte **** #
O Caso dos Irmãos Naves ***** #
Terra em Transe **** #

sexta-feira, julho 02, 2010

+ Filmes ou The Dark of the Matine

Quase, quase. Tô quase conseguindo imprimir ritmo. 108 no total. Mais uma vez 54 em 3 meses.

Flashback:

"Os filmes estão na ordem em que foram assistidos [...] e acompanhados de uma classificação que vai de uma (*) a cinco (*****) estrelas. Essa classificação é apenas um indicativo de quanto eu gostei do filme, não é nem de longe uma análise. Alguns filmes vem acompanhados do símbolo #, isso quer dizer que foi a primeira vez que eu o assisti, e os que possuem refilmagens ou mais de uma versão estão seguidos da data da versão assistida. Os filmes que eu assisti mais de uma vez esse ano foram colocados apenas uma vez."


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Chico Xavier ** #
Metrópolis *****
Daqui a Cem Anos ** #
Cidadão Kane *****
Vício Frenético **** #
The Cove ***** #
As Melhores Coisas do Mundo **** #
2001 - Uma Odisséia no Espaço *****
Planeta Proibido ** #
O Encontro (Curta) **** #
Alice no País das Maravilhas (2010) *** #
Chinatown ***** #
Homem de Ferro 2 *** #
A Aldeia dos Amaldiçoados (1960) **** #
A Máquina do Tempo (1960) *** #
O Fim da Escuridão **** #
Kick-Ass - Quebrando Tudo ** #
Hellboy II - O Exército Dourado * #
A Primeira Noite de um Homem ***** #
Gomorra * #
Tudo Pode Dar Certo ** #
Ninja Assassino * #
A Conversação **** #
Daybreakers *** #
Robin Hood (2010) ** #
Deliver Us from Evil ***** #
Terra Estrangeira ***** #
Jornada nas Estrelas - O Filme (1979) *** #
Houve Uma Vez Dois Verões **** #
Battlestar Galactica - The Plan ** #
O Livro de Eli ** #
Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo ** #
Eles Vivem *** #
O Quinto Poder *** #
O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy ** #
Me and Orson Welles *** #
Estômago **** #
Battlestar Galactica: Razor *** #
O Sonho de Cassandra *** #
Capital Circulante (Curta) ** #
O Golpista do Ano *** #
Paranoid Park **** #
Dia & Noite (Curta) ***** #
Toy Story 3 ***** #
Contatos Imediatos de Terceiro Grau ***
Guardiões da Noite **** #
Guardiões do Dia * #
Corrida Silenciosa ** #
Criação *** #
Blade Runner ***** #
Kamchatka **** #
Quincas Berro d'Água ** #
Recém-Formada * #
Código 46 ****

sábado, abril 03, 2010

+ Filmes ou The Dark of the Matine

Nesses 3 meses eu já vi 54 filmes. Só 30 a menos que o, vergonhoso, ano passado todo. Mas longe ainda do que poderia, e deveria, ser.

Flashback:

"Os filmes estão na ordem em que foram assistidos [...] e acompanhados de uma classificação que vai de uma (*) a cinco (*****) estrelas. Essa classificação é apenas um indicativo de quanto eu gostei do filme, não é nem de longe uma análise. Alguns filmes vem acompanhados do símbolo #, isso quer dizer que foi a primeira vez que eu o assisti, e os que possuem refilmagens ou mais de uma versão estão seguidos da data da versão assistida.Os filmes que eu assisti mais de uma vez esse ano foram colocados apenas uma vez."


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Zumbilândia *** #
Distrito 9 *** #
Se Beber Não Case **** #
A Garota Ideal ***** #
Os Imperdoáveis ***** #
Fantasia ** #
Guerra ao Terror **** #
Eu Te Amo, Cara **** #
Avatar ****
Harvie Krumpet (Curta) ***** #
G.I. Joe - A Origem de Cobra ** #
Grand Torino ***** #
Os Incríveis *****
12 Homens e Outro Segredo ****
Star Trek *****
Watchmen - O Filme ****
Invictus ** #
Amor Sem Escalas *** #
O Incrível Hulk *** #
O Homem Urso *** #
Harry Potter e o Enígma do Príncipe ****
Um Olhar do Paraíso ** #
An Education **** #
No Direction Home: Bob Dylan ***** #
Onde Vivem os Monstros ***** #
Sherlock Holmes *** #
Coraline e o Mundo Secreto ** #
Toy Story *****
Inimigos Públicos ****
O Desinformante! *** #
The Men Who Stare at Goats **** #
A Fita Branca ***** #
Amantes **** #
Toy Story 2 ****
Baile Perfumado **** #
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa *****
Um Homem Sério ***** #
Preciosa - Uma História de Esperança ***** #
O Fantástico Sr. Raposo **** #
A Estrada **** #
Ilha do Medo **** #
O Segredo dos Seus Olhos ***** #
Moon *** #
Pandorum ** #
O Mensageiro (2009) **** #
Touro Indomável *** #
Triangle *** #
Senhores do Crime **** #
The Invention of Lying ***#
F for Fake ***** #
Mary and Max ***** #
Coco antes de Chanel ** #
Julie e Julia *** #
Como Treinar Seu Dragão **** #

segunda-feira, março 29, 2010

Mary And Max

Sempre envio filmes pelo correio pra minha amiga Cleonice (E alguns presentinhos, como um relógio da Marvel), autora do blog A Loucura é a Saída de Emergência e marvete fanática.
Na última leva, além de clássicos e filmes consagrados de Kubrick, Almodóvar e Hitchcock, foi também a animação stop motion australiana desconhecida Mary and Max, que eu descobri através do twitter do Pablo Villaça.
O filme é lindo. Triste, deprimente e vai te fazer chorar por 1h20min, mas lindo. Desde a belíssima fotografia à história em si e a construção do roteiro. Vale a pena conferir.
Mas esse post não é sobre isso.
Depois de assistir ao filme, a Cléo me mandou o seguinte e-mail:

"Eu estava ouvindo uma música, hoje, uma bela música. Belas músicas lembram belas amizades. E belas amizades lembram não só belas coisas, mas lembram o conjunto de tudo, lembram os momentos difíceis, e os momentos de superação. Belas amizades lembram o verbo "ceder", lembram o verbo "amar". Lembram lágrimas. Todas as lágrimas. Lágrimas de todas as cores. Das cores de Almodóvar, e do desconforto causado por Almodóvar. Da genialidade de Kubrick, e das poucas vezes em que a amizade se encerra em unanimidade. Das horas, de todas as horas, do relógio da Marvel, que fica na mesa do Morpheus. Morpheus esse que lembra o rei dos sonhos, mas seria apenas um PC. Seria, se não fosse o principal mediador desta amizade. O homem que sabia demais. Sim, Hitchcock sabia demais. O que sera, sera, e é. É uma bela amizade. E não estou falando da amizade de Mary and Max, que é belíssima, mas estou falando da nossa amizade. Foi por intermédio da nossa amizade que eu conheci Mary and Max. E é justamente por conhecer essa amizade, que ouvir "Que sera, sera, Whatever Will Be, Will Be", fez com que eu me lembrasse da nossa amizade. Segue, em anexo, as duas versões que tenho da canção. A versão do filme do Hitch e a versão de Mary and Max, interpretada por Pink Martini.
Beijos.
Cléo."

Nem preciso falar que eu fiquei todo bobo, né?
Bom, as músicas:


quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Eu...

“Eu…”
E não pode dizer mais nada.
Não que houvesse algo a ser dito.
Mas...
Não que ele quisesse ter sido particularmente prolixo.
Mas “Eu...”?
Foi pego de surpresa.
Isso se pode dizer.
A situação não requeria palavras.
Isso era fato.
Mas...
Ação.
Isso ele poderia ter feito.
Não fez.
Nunca se perdoaria por isso.
Mais que a falta de palavras.
Mas “Eu...”?
Palavras de um corno.
Isso ele era.
Corno.
Talvez devesse esperar por isso.
Talvez.
Inação era seu nome do meio.
Não o da esposa.
Ele não a culpava.
Mas...
Não culpava por querer outro.
Culpava por não ter dito.
Ele era o covarde.
Não ela.
Não?
Talvez devesse ter dito algo.
Mas “Eu..”?
Talvez.
Quem sabe agora seguiria em frente.
Quem sabe pudesse algo.
Nunca podia.
Nunca pôde.
Mas...
Ele só queria voltar.
Não para a esposa.
Antes.
Qualquer antes.
Talvez fosse isso.
Ele sempre só quis antes.
Mas “Eu...”?
Escreveu uma carta.
Pôs no correio.
Era o fim.
Fim.
Era o começo.
Feitas as malas, entrou no carro.
Andava pra trás.
Mas...
Mas andava.

sábado, janeiro 30, 2010

Academic Series #6

Resenha do Filme “Deixa Ela Entrar” (Tomas Alfredson, 2008)


Oskar não tem ninguém, sua mãe quase não está presente em sua vida, o pai menos ainda. Na escola, sofre de bullying e apanha constantemente dos colegas. Em casa, de noite, fantasia com o assassinato de seus agressores.
É numa dessas ocasiões que ele conhece a garota. Eli, a única pessoa com quem ele realmente vai se identificar ao longo da história.
Eli é um vampiro, mas isso não é realmente importante para o filme. O filme trata de solidão, de isolamento. O vampirismo é só uma metáfora exacerbada do que Oskar já passa no dia a dia. Daí a identificação dos dois personagens, no fundo eles passam pelos mesmos problemas, ele adolescente, ela vampiro.
Para evidenciar o isolamento o diretor abusa do silêncio e das frias paisagens nevadas da Suécia. Longos, e belos, planos onde só o que se vê é a neve tomando conta de tudo, às vezes com Oskar perdido em meio a isso.
Mesmo a relação entre os dois pequenos adolescentes não se desenvolve por meio de palavras e sim por gestos e ações. O mesmo se dá com toda a narrativa, muito pouco é dito e o espectador tem que ter o trabalho de juntar os acontecimentos e as informações em sua cabeça, sem a usual repetição e reiteração que se costuma ver em outros filmes.
Isso pode deixar alguns meandros da narrativa um pouco confusos para algumas pessoas, mas no fim, deixando alguns pontos em aberto e sem explicação, acaba enriquecendo a história.
Quem é Håkan? Qual a origem de Eli? Qual a natureza da relação entre o pai de Oskar e aquele amigo? Qual o real interesse de Eli em Oskar? Essas questões são deixadas bem mais claras no romance que deu origem ao filme, mas o diretor corretamente optou por deixar isso a cargo do espectador e deixar a narrativa se construir por si só.
Mas a opção mais corajosa está na solução que o filme dá para o isolamento em que os personagens são colocados. Ela não está apenas na união entre os isolados e no apoio mútuo para superarem a situação, o apoio existe, mas a solução reside na vingança e na violência contra aqueles que os colocam naquela situação.
Eli precisa de sangue para sobreviver, essa é a sua condição fisiológica como vampiro e você aceita e compreende suas ações diante disso, mas ao mesmo tempo Oskar também precisa do sangue daqueles que o perseguem e oprimem.
Desde o primeiro momento ela o encoraja a reagir contra os seus molestadores, esse é o principal desejo de Oskar, ele quer sangue. Ela, em determinado momento, confessa que o principal motivo para ter se aproximado dele foi ter identificado em Oskar esse desejo, e quando chega o momento ela toma isso para si.
Se está na natureza dela como vampiro matar para sobreviver, está na natureza de Oskar como ser humano lutar, literalmente, contra aquilo que o exclui da sociedade.
E é disso que o filme trata ao escolher o vampirismo como seu tema e metáfora.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

+ Filmes ou The Dark of the Matine

Dio Santo, mas eu nem postei com quantos vergonhosos filmes eu terminei 2009.
Essa porra 'tá abandonada mesmo.
Bom, desde a última postagem até o fim do ano foram 44.
Somando 84 no total.
A menor soma desde que eu comecei a contar, 6 filmes a menos que o desastroso 2008.
Um novo record negativo.
Esse ano as coisas parecem mais promissoras.

Flashback:

"Os filmes estão na ordem em que foram assistidos [...] e acompanhados de uma classificação que vai de uma (*) a cinco (*****) estrelas. Essa classificação é apenas um indicativo de quanto eu gostei do filme, não é nem de longe uma análise. Alguns filmes vem acompanhados do símbolo #, isso quer dizer que foi a primeira vez que eu o assisti, e os que possuem refilmagens ou mais de uma versão estão seguidos da data da versão assistida.Os filmes que eu assisti mais de uma vez esse ano foram colocados apenas uma vez."


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Sputnik Mania *** #
Exterminador do Futuro 4 - A Salvação *** #
Entre os Muros da Escola ***** #
A Cartada Final ***
As Crônicas de Nárnia - O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas ***
Operação Valquíria ** #
A Mulher Invisível **** #
Harry Potter e o Enígma do Príncipe *** #
Antes do Amanhecer *****
Antes do Pôr-do-Sol *****
O Escafandro e a Borboleta **** #
Apenas o Fim ** #
O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei ****
Dúvida ***** #
Up – Altas Aventuras *** #
Nanook, o Esquimó ***** #
Um Dia Especial ****
Frost/Nixon ***** #
Deixa Ela Entrar ***** #
Bastardos Inglórios *** #
Diários de Motocicleta ****
Crônica de um Verão **** #
Acossado ** #
Juventude Transviada **** #
A Noite *****
(500) Dias com Ela **** #
2012 *** #
Ultimato Boune *****
As Brumas de Avalon ** #
Avatar **** #
O Show de Truman ****
Nascido em 4 de Julho ** #
O Lutador **** #
Inimigos Públicos **** #

quinta-feira, setembro 24, 2009

Ésses em Série Sem Sentido

Será, surrealismo, se, sessão, surto, sala, sentido.
Série, são, sensação, sempre, separar, sofrer, ser, show.
Só.
Semântica, semiótica, similar.
Sinfonia, soltam, som, saindo, sei, sim.
Seleção, social, silêncio, sobre, sem, sociedade.
Singelo, subverter, simples, selvagem,
Saiba, status, soja, sentado, subjetividade.
Sucesso, suite, semelhança, situação, salta, suburbano, semestre, sua, socialista.
Soviética.
Simultaneidade, seleto, surgir, superação.
Seu.
Seminal.
Sistematizar, sentimental.

quarta-feira, setembro 23, 2009

Fragmentos d'um Dia Ordinário Vol. 2

Som, sono, sabão.
Pedras, joelho, tempo, atraso, sardinha.
Desconforto, deslocamento, isolado, luz, direito, ritmo.
Famoso quadrado, irritante retorno, fuga no silêncio, sinfonia diagonal.
Duas pernas, museu, natural, pacote de exceção, mudança progressiva, pertinente.
Nascente desespero, painel na segunda, texto.
Contexto.
Respingo vanguardista, estudo de recepção, tangente, cintura.
Especificidade.
Distinção, curadoria, intervalo em instantes, concreto, dezessete, grandes construções, documentar, estática.
Função social, literal, chave, chuva.
Risco do silêncio, registro, pira, esquimó, discurso.
Objeto, objetividade.
Interferência, clara, tipologia, exotismo, princípios, escolhas.
Prateleira, banal, singelo, poética do ovo frito.
Tenso.
Conteúdo referencial, humanista, alcachofra, ética, espaço-tempo, independente, falácia.
Reconfiguração.

domingo, agosto 23, 2009

Academic Series #5

Análise da Linguagem Cinematográfica: Mini conto com uma unidade de ação, tempo e espaço.

Rodrigo nunca se atrasava para a aula, mas é claro que da única vez que se atrasou o professor resolveu passar um teste surpresa.
Surpresa, essa era o seu rosto agora, Oito questões dissertativas, das grandes.
Pontual, mas não exemplar, Rodrigo precisava da nota.
Ele nunca escreveu tão rápido, não estava nem preocupado se o professor iria entender sua letra. As mãos trêmulas não ajudavam.
Na sua mente só o que ocupava espaço, e isso piorava um pouco mais, era o motivo do atraso. Ah, se sua mãe pudesse vê-lo agora, seria mais uma daquelas discussões sobre responsabilidade. "Inconsequente", a voz de sua mãe ainda ecoava em sua cabeça.
Quatro minutos, duas questões. Sua mente divagava, nem sabia o que escrevia.
"Carla, Carla, Carla", por que não se concentrava no teste?
Um minuto, uma questão e meia. A última ficaria em branco, não que ele soubesse de qualquer maneira.
"Pode entregar agora, Rodrigo" - o professor não precisou pedir duas vezes.
Talvez ainda houvesse tempo de alcançar Carla, mas é claro que hoje o ônibus não atrasaria.

sábado, agosto 22, 2009

Academic Series #4

História da Arte: “Filhos da Esperança”

I – Introdução.

O filme “Filhos da Esperança”, do diretor mexicano Alfonso Cuarón, é um dos mais ricos em termos de arte dos últimos anos. Principalmente por se tratar de um filme de estúdio de grande orçamento, que normalmente ignora esses aspectos.
Situado em uma Londres pós-apocalíptica de 2027, onde a humanidade tornou-se estéril e beira a extinção, a arte é parte fundamental tanto da narrativa quanto como elemento estético do filme.
Esse trabalho visa evidenciar como se deu essa utilização ao longo do filme, da carreira do diretor e das fases da história da arte visual.

II – Análise.

1. A arte em Alfonso Cuarón.

Desde o início de sua carreira o diretor Alfonso Cuarón procurou a convergência de outras artes visuais dentro de seu trabalho cinematográfico, principalmente o da pintura.
Em dois dos seus trabalhos anteriores isso se torna bastante evidente.
Primeiramente, ao filmar sua adaptação do clássico “Grandes Esperanças”, em que o personagem principal é um pintor, fez uma bela inserção do trabalho do artista Francesco Clemente. Usando-o como premissa para composição estética do filme.
Depois, ao filmar sua adaptação de um dos livros de Harry Potter, Cuarón não abandonou sua estética. Ele fez o departamento de arte do filme produzir centenas de pinturas para cobrir as imensas paredes do castelo de Hogwarts.
Além de ele mesmo filmar dezenas de cenas diferentes para compor os quadros com personagens que se movem, que fazem parte do universo da história. Mesmo que eles fossem aparecer apenas de relance e sequer seriam perceptíveis para a maioria dos expectadores.

2. A arte na narrativa.

Uma das partes fundamentais da história de Filhos da Esperança é o ministério comandado pelo primo do personagem principal e o seu programa “Arca das Artes”. Com a sociedade mundial colapsada e próxima da extinção o governo britânico, o único ainda em funcionamento, inicia um projeto para salvar, recuperar e armazenar as principais obras de arte do mundo.
Já a começar pela a escolha do prédio, a ponte que leva até ele é uma referência ao Tate Modern. E pela configuração de sua fachada, uma recriação da capa do disco “Animals” da banda Pink Floyd.
Dentro do prédio podemos encontrar a escultura “Davi” e o quadro Guernica. Além de uma citação de um dos personagens: “Não pude salvar a Pieta, estava destruída quando eu cheguei lá”.
Vários períodos da arte representados em apenas alguns minutos de filme. O período vitoriano, logo antes do personagem principal chegar ao prédio, o renascimento, o modernismo e até mesmo a pop art.
Ainda, no filme, vários grafites são deixados proeminentes durante a trama. Podendo ser vistos ao longo de todo o filme nas paredes em torno dos personagens. Esses grafites foram feitos pelo artista de rua Bansky.

3. A arte como pano de fundo estético.

Todas essas cenas mostradas acima, com todas as suas referências, não passam de um preparativo. Essa subtrama foi desenvolvida de modo a preparar o espectador para o que estava por vir, e dá-lo as ferramentas para a leitura do filme da maneira pretendida pelo diretor.
Por ter como trama a primeira mulher grávida em dezoito anos, sendo que o nascimento de seu filho representaria a possível salvação da humanidade, o filme procura representá-la como uma Madonna. Explicitamente brincando com os paralelismos com a história de Jesus Cristo.
Para representar isso de maneira visual, não apenas por meio de textos no filme, o diretor utiliza-se de referências históricas da arte, principalmente no que diz questão à Madonnas, para retratar a personagem.
Partindo da premissa que o expectador já está familiarizado com esses temas o diretor sente-se livre para utilizá-los de todas as maneiras durante o filme.
Durante momentos chaves ele usa enquadramentos que remetem às pinturas neoclássicas, barrocas e modernas para ditar o espírito do filme naquele momento e em diante.
Além disso, ele também espalha pelos cenários referências à arte de rua, como já falado acima, pinturas rupestres, cartoons, gravuras etc. para enriquecimento da trama. Todos tornando-se importantes, ao final, para a contagem da história.

III – Conclusão.

“Filhos da Esperança” é um filme que se utiliza maravilhosamente da arte e da sua história para criar a atmosfera que pretende, usando-se do conhecimento prévio que o expectador tem disso para enriquecer sua história e sua trama.
Ponto alto da carreira de um diretor que desde o início esforçou-se para uma convergência de todas as artes dentro do cinema, do qual esse trabalho só se focou na faceta visual.
No fim, o que melhor resume o espírito do filme é uma frase do historiador da arte Giulio Carlo Argan: “O progresso é racional, a decadência inevitável. O contraste reflete um dilema mais grave: o progresso, motivo de orgulho da sociedade moderna, é uma ascensão da humanidade para a salvação ou uma louca corrida para a ruína?”

IV – Bibliografia.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos. 5o edição, Companhia das Letras, 1992.

GRANDES ESPERANÇAS. Alfonso Cuarón, Art Linson, New York: Twentieth Century-Fox Film Corporation, 1998. 1 DVD (111 min), son., color.

HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN. Alfonso Cuarón, David Heyman, London: Warner Bros. Pictures, 2004. 1 DVD (141 min), son., color.

FILHOS DA ESPERANÇA. Alfonso Cuarón, Marc Abraham, London: Universal Pictures, 2006. 1 DVD (109 min), son., color.

PS: O trabalho original continha diversas imagens que acompanhavam e comentavam o texto, mas eu, na minha ignorância, não consegui transpô-las para o blog.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Academic Series #3

Semiótica: Análise semiótica do filme "Roma" de Fellini.

A cacofonia da cidade de Roma é representada não apenas pela sinfonia destoante de seus sons, mas também pelas imagens de seu cotidiano.
Ao invés de revelar a Roma em que vivia, do presente e de sua infância, utilizando uma história linear clássica Fellini deixa que a cidade mostre-se por si mesma através de seus sons e imagens. Tornando, inclusive, a figura do narrador e de personagens fixos desnecessários para seu objetivo.
A verdadeira Roma nos é mostrada, a Roma de seus moradores, dos pobres, dos trabalhadores.
A Roma mítica, a Roma dos turistas é deixada de lado, ignorada.
A cidade nos é mostrada sob a visão virgem de um forasteiro, sob os olhares analíticos e objetivos de um jornalista e de uma equipe de documentaristas que vêem a cidade como se estivessem alheios a ela. Porém somos guiados pelas mãos e pela mente de um verdadeiro romano, nascido e criado ali, profundo conhecedor de todos os seus aspectos.
A confusão da cidade é evidenciada através de ambientes claustrofóbicos, escuros e barulhentos, repletos de pessoas ocupando todos os espaços.
Todos os ambientes são assim, desde a escola, a estação de trem, o subúrbio, as ruas e restaurantes, o teatro e os bordéis populares ou de alta classe do início dos anos 1940 até o caótico trânsito, as ruas e restaurantes, as obras do metrô e as praças do início dos anos 1970. Até mesmo um inicialmente calmo parque arborizado é rapidamente tomado por barulhentas turistas americanas.
Por todo lugar barulho, sujeira, confusão e com uma multidão em volta que grita, canta e blasfema ao mesmo tempo.
Tudo isso em confluência com o passado histórico da cidade, berço de um dos maiores e mais importantes impérios da história ocidental.
Estátuas cortadas, ruínas romanas, palácios e obras renascentistas em meio ao caos urbano de uma cidade em guerra, em um tempo, e de uma metrópole inflada, em outro.
A primeira imagem de Roma é uma pedra milenar no campo.
César divide espaço com o ufanismo fascista de Mussolini. E mesmo em 1970 pôsteres de propaganda política cobrem todas as paredes trazendo imagens de líderes em perfil remetendo aos perfis dos césares nas moedas do passado.
Motocicletas cortam em alta velocidade os monumentos de onde se ergueu a civilização moderna ocidental.
As mais belas obras criadas pelo homem circundam as feias, sujas e escuras vielas romanas.
O velho e o novo, onde de dia passam bondes de noite passam ovelhas, onde deveriam passar carros passam vacas que terminam mortas e ensanguentadas no asfalto.
O metrô corre junto de catacumbas e verdadeiras cidades subterrâneas.
A modernidade não deixa espaços para o passado, a imaculada casa romana de dois mil anos sucumbe ao simples contato com o metrô.
Os belos e coloridos afrescos são rapidamente corroídos ao entrar em contato com o ar externo e desaparecem diante dos nossos olhos.
As pessoas são feias, sujas, mal cuidadas e barulhentas, sejam as que vivem na iminência da segunda guerra ou as contemporâneas do boom econômico dos anos 1970.
Tudo o que é belo vem de fora ou de um passado imemoriável.
Roma também abriga a Cidade do Vaticano, portanto a Igreja é parte intrínseca da cidade e como tal também suja. O Papa dorme por trás de seus óculos escuros em um palácio empoeirado, escuro e decadente. Palácio de uma princesa envelhecida que chora.
Segue-se um desfile de roupas eclesiásticas. O ambiente escuro e claustrofóbico é cercado por membros do clero. Uma figura encapuzada toma o centro.
A igreja é sintetizada num desfile de moda bizarro, escuro e mórbido, em vão tentando entrar no mundo moderno com padres em roupas da moda sobre patins e bicicletas.
Uma igreja que vive de aparências com um desfile de roupas vestidas por ninguém, vazias, roupas brilhantes e com luzes piscantes.
O endeusamento de uma figura definhada, representando o papa, cercada por um palácio dourado e criados fanáticos em transe.
Figuras distorcidas, desfiguradas, envelhecidas, decadentes, uma carruagem de esqueletos e caveiras evidenciam o atraso, os pecados, o comprometimento e a influência destrutiva na sociedade de uma instituição que deveria simbolizar a vida, mas representa a morte.
Tudo acompanhado de uma música destoante que torna a experiência ainda mais incômoda.
Ao longo de todo o filme espelhos são mostrados e distribuídos por todos os lugares nos lembrando quem afinal é responsável por moldar a face da cidade, nós mesmos.
A maior concentração de espelhos e superfícies refletoras é justamente no desfile de moda eclesiástica. Afinal a igreja não passa de um espelho da sociedade onde ela está inserida.
Roma é seu próprio povo, seus moradores, seus governantes, sua história e a Igreja entranhada dentro dela.
Não é o que ela tem, o que ela foi ou onde ela está que faz uma cidade e sim quem está nela.
Nos trinta anos que o filme nos mostra, por mais distintas que sejam as situações em que a cidade, ou a Itália, se encontra ela na verdade pouco ou nada muda.
“É esta a cidade das ilusões. É uma cidade, antes de tudo, da Igreja, do governo, dos filmes. Todos fabricantes de ilusões.” Essa é a síntese do que nos é mostrado nas duas horas de filme. Uma ilusão que nos é desnudada e desmitificada aos poucos até enxergarmos por trás do véu sem que uma palavra tenha que ser dita.

quinta-feira, agosto 20, 2009

Academic Series #2

História do Cinema: A Verdade e o Neo-realismo Italiano.

I – Introdução.

A herança deixada pelo neorealismo italiano na história do cinema é incalculável.
Seu estabelecimento determina a morte do cinema clássico narrativo e o nascimento do cinema moderno. Sua estética ainda hoje molda grande parte da cinematografia mundial.
Esse trabalho analisará penas um pequeno fragmento dela: “A Verdade”.
Pegando quatro filmes posteriores ao neorealismo analisarei neles a marca deixada por esse movimento na manifestação, estetização e projeção da verdade.
Dois desses filmes adotando literalmente uma estética neorealista para transmitir sua história, seus conceitos. Adaptando aos tempos atuais a natureza do cinema italiano pós segunda guerra.
Um deles adotando parte de sua estética para a legitimização de sua natureza fantástica.
E por último um que se utiliza de outros valores para transmitir a mesma ideia.

II – Análise.

1. Da Verdade Neorealista


“Entre os Muros da Escola” e “O Filho” são filmes de temática completamente diferentes.
Enquanto “O Filho” acompanha um pai, que dá aulas profissionalizantes para jovens infratores, tendo que lidar mais uma vez com a morte de seu filho quando seu assassino torna-se um de seus alunos. “Entre os Muros da Escola” acompanha um professor de uma escola pública francesa durante um ano de uma turma de sétima série.
Esteticamente, porém, são filmes irmãos.
Diriam que ambos adotam uma postura quase que documental, baseando-se nos documentários para estabelecerem sua estética.
No entanto esquecem-se que a estética documentarista moderna nasce com o neorealismo italiano.
Ambos filmes fundamentam-se no “Real”, na “Verdade”, para funcionarem como história. Nenhum deles seria factível, e portanto perderiam toda sua dramaticidade implícita, não fabricada, se o espectador não acreditasse piamente naquilo como verdadeiro. Como se aquilo realmente não tivesse se desenrolado diante das câmeras, sem artificialização, sem qualificação.
Foram, então, beber na fonte da estética realista do cinema ocidental, o neorealismo italiano.
“O Filho” rejeita quase que completamente a montagem, é um filme de planos sequências. A única função da câmera é seguir o personagem principal através de seus dilemas mentais, sem jamais interferir.
Durante boa parte do filme podemos apenas contemplar suas costas enquanto ele vai à algum lugar. Não há intromissão ou manipulação, nem mesmo no tempo, não há atalhos enquanto o personagem principal revisita a morte de seu próprio filho na convivência daquele que lhe tirou a vida.
O filme abandona , também, a trilha sonora, que se tornaria, no caso, apenas intrusiva. Não existe elaboração na fotografia, ele é todo filmado em locações, não há maquiagem, nada que nos lembre que nós estamos, na verdade, vendo um filme.
“Entre os Muros da Escola” adota essa mesma estratégia.
Sem utilizar-se de atores, cada aluno interpreta a si mesmo, com exceção àquele expulso, enquanto o professor é interpretado pelo próprio autor do livro que inspirou o filme.
O filme corre todo como se fosse um documentário, como se as câmeras simplesmente acompanhassem o dia a dia daquela sala de aula, de seu professor e da escola.
Toda uma estética é adotada para que o expectador creia que esteja testemunhando os fatos como que se estivessem a acontecer, com as câmeras simplesmente acontecendo de estar ali. Essa estética vem, mais uma vez, do neorealismo.
Como em “O Filho” não há cenários, figurinos, maquiagem (cada espinha é visível no rosto de cada adolescente), trilha sonora ou qualquer outra artificialização.
Se somos levados a crer que aquilo realmente é verdade é porque nós fomos criados, e já estamos acostumados a ver essa abordagem em reportagens e documentários, em oposição à estética hollywoodiana de show e entretenimento.
E toda a estética do documentário moderno foi moldada por aquilo que o neorealismo estabeleceu como sendo verdade.
Qualquer coisa mostrada como real, mesmo que não real, é aceita pelo público como tal, já que a generalidade da cinematografia mundial o dirige nessa direção.
A verdade neorealista tornou-se a verdade geral ao ser incorporada e adotada pela indústria cinematográfica como um todo.
Os dois filmes incorporam isso à sua temática e usam como trunfo para contar sua história.
Você vê o sofrimento de um pai, você vê toda uma escola francesa, não apenas sua representação. Tudo isso do impacto causado pelo neorealismo e nas raízes profundas deixadas por ele.


2. De uma outra Verdade


O neorealismo é o nascimento do cinema moderno, mas sua estética não é a única a propor a verdade, o real.
Outras estéticas surgiram ao longo da história com suas próprias propostas, radicalizando a neorealista ou divergindo dela.
O movimento Dogma 95 é só um exemplo de radicalização, abolindo de forma completa tudo aquilo que o neorealismo evitava.
Mais interessante, porém, é observar como fantasias e ficções se apóiam numa estética para incutí-las de veracidade, que sua própria natureza fantástica as tira. Estética essa muitas vezes derivada daquela mesma estética vinda do neorealismo italiano, ou revestindo-se em outras para criar sua própria verdade.
Algumas fantasias só passam a funcionar como história a partir do momento em que o espectador aceita aquilo como sendo real, e no cinema elas precisam adotar estratégias para que isso aconteça.
Quando Alfonso Cuarón aceitou adaptar o livro “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” para o cinema ele quis fazer algo diferente dos dois primeiros filmes. Ele acreditava que o sucesso da série de livros residia justamente na veracidade que ela trazia.
Ao contrário da maioria das fantasias com seus mundos, realidades e universos paralelos, o mundo de Hary Potter era palpável. Por mais fantástico que ele parecesse ele sempre se apresentava como real, e a autora havia trabalhado cuidadosamente para que isso acontecesse.
Cuarón achava que a única maneira de adaptar a obra com sucesso seria conseguindo levar esse espírito para as telas do cinema.
Para isso ele adotou suas próprias estratégias.
Primeiramente ele eliminou ao máximo a utilização de efeitos de computador, algo impensável numa produção hollywoodiana, tudo o que pudesse ser feito diretamente na frente das câmeras seria feito. Vários truques reais de ilusionismo foram adicionados ao longo do filme, mesmo a criação das criaturas conhecidas como dementadores só foi feita em cgi após sucessivas tentativas fracassadas de fazê-los de outra maneira.
Em segundo lugar ele abandonou a alegre fotografia utilizada nos filmes anteriores e a substituiu por uma mais escura e compatível com o ambiente cinzento, frio e chuvoso em que se passa a história.
Em terceiro, ele alterou o figurino, as próprias roupas do trio principal de atores passou a fazer parte das cenas. E até mesmo na impossibilidade de se retirar os uniformes durante as cenas das aulas ele pediu que cada ator o vestisse de um jeito diferente, à sua própria maneira.
As cenas foram, ao seu máximo, filmadas em locações pela Inglaterra e Escócia em detrimento de estúdios.
Cenas cotidianas e banais foram incluídas ao longo da história e travellings passaram a ser utilizados para exemplificar a passagem do tempo, acabando com o tom episódico dos longas anteriores.
Como se não bastasse, ao próprio tema musical principal do filme foi adicionado uma justificativa diegética para a sua introdução.
Alfonso cercou-se de referências estéticas do neorealismo e introduziu-as em meio a uma história fantástica para poder legitimizá-la. Para trazer o ambiente realista que estava procurando, para dar ao filme aquilo faltava aos anteriores: Verdade.
Como resultado obteve a adaptação mais fiel à história original dentre os filmes da série lançados, mesmo que seu roteiro seja o que mais fuja ao livro.
Outro recente filme de ficção que usa uma estratégia de projeção da verdade é a animação da Pixar “Wall-e”.
Um filme que mostra ainda mais coragem ao romper com padrões hollywoodianos por se tratar de uma animação destinada ao público infantil.
Toda a primeira parte do filme se passa como um filme mudo, sendo os únicos “diálogos” compostos pelos sons do robô Wall-e.
Ambientada numa distopia futurista em que o planeta Terra se encontra totalmente devastado e consumido pelo lixo produzido pelo homem, ele é habitado apenas por um robô, responsável pela limpeza do planeta, o único ainda em funcionamento, e por, é claro, baratas.
A humanidade, isolada em uma estação espacial distante do que restou do planeta, se tornou obesa e com os músculos e membros atrofiados devido a não utilização.
O filme se vale de uma série de estratégias para imbuir de verdade, sua verdade, o público.
Ele exagera ao caricatural para mostrar o que a preguiça e a inatividade, física e mental, gera nas pessoas.
Curioso notar que enquanto todas as pessoas da história são dirigidas apenas pela futilidade e inatividade, o único ser dotado de emoções realmente humanas, como o amor, é um robô.
É um filme que se utiliza de uma estética diferente da neorealista para se estabelecer, mas que compartilha com o movimento a ideia que o cinema é uma forma de expressão voltada a criar a dignidade humana.
Se vale de outros meios para atingir o mesmo objetivo, levar uma verdade ao espectador.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Academic Series #1

História do Cinema: "Aurora" de Murnau e a Sedução da Cidade.


O encanto e sedução da cidade já começam o filme estabelecidos. O marido, já caído de amores pela mulher da cidade despreza a própria esposa, com quem até então era feliz, e depena sua fazenda para manter seu romance.
Porém não é esse o encanto que o filme procura destacar. Nos EUA da década de vinte o campo representa unicamente o atraso e já não tem nada a oferecer, fazendeiros são tentados a deixarem sua condição por anúncios nos jornais de compra em dinheiro de suas propriedades.
O campo é só diversão passageira, retiro de férias.
O Marido, então, é convencido pela amante a assassinar sua esposa afogada e mudar-se com ela para a cidade. Ele, relutante, acata.
Os belos sapatos, que a amante faz questão de dar brilho antes de sair, afundam-se na lama ao revelar a verdadeira identidade de sua dona.
O poder da cidade é revelado depois.
Após não conseguir seguir o plano da mulher da cidade, o marido e a esposa vão parar na cidade. Ela desolada e temerosa de seu próprio marido, ele arrependido e buscando perdão.
É a cidade que os reconcilia. É ela que devolve a alegria que eles outrora possuíam. Com seus atrativos, com sua modernidade, com sua beleza. A igreja, e o casamento, servem como purgação, mas é a cidade que os trás de volta.
No retorno para casa age o destino. Uma tempestade repentina os atinge durante a travessia da água. O marido, que se recusara a jogar a esposa n’ água, agora vê isso como único desfecho possível.
Desesperado, ele amarra nela os gravetos entregues pela amante para que ele salvasse a própria vida após matar a esposa.
No fim ela não milagrosamente surge intacta, o que a salva é justamente o símbolo de seu assassinato.
Seus cabelos louros até então mostrados apenas bem presos, fato enfatizado pelo filme, são finalmente vistos soltos. Ondulados, eles emolduram o seu rosto conferindo-a uma aparência angelical.

domingo, julho 05, 2009

Filosofia de Banheiro Vol. 2

Eu não consigo entender esse negócio de as mulheres reclamarem que os homens não abaixam o assento do vaso depois de usarem.
Afinal de contas a dificuldade que os homens teriam em abaixar é exatamente a mesma que elas tem em levantar, então por que a prioridade é delas a ponto de se revoltarem com isso?
A lógica não concorda, mesmo porque, caso uma mulher, distraidamente, sente-se num vaso com o assento levantado as consequências são infinitamente menores do que, por exemplo, um homem, dotado de igual distração, faça xixi com o assento abaixado, molhando, emporcalhando e destruindo todo o ambiente wcístico.
A inconveniência de ser obrigado a levantar é a mesma de ser obrigado a abaixar.
Além do mais existe um agravante agravadíssimo! Existe sobre o assento uma coisa chamada tampa.
Vejam bem, tampa do assento, e não, como algumas mulheres gostariam de pensar que fosse, encosto do assento, que eu, particularmente, gosto que seja mantida abaixada.
Revoltam-se com a incapacidade alheia de não abaixar o assento enquanto, literalmente no caso, sentam-se sobre os próprios rabos e não são capazes de abaixar a tampa.
Portanto, parem de reclamar.
E abaixem a porra da tampa.

quinta-feira, julho 02, 2009

#forasarney

Sou só eu que acha a coisa mais ridícula do mundo essa história do #forasarney no twitter?
Faz quantos anos já que eu fiz um post sobre o Sarney?
Mas é o sinal dos novos tempos.
Se as pessoas pelo menos tivessem algo a dizer.
Mas para que tentar raciocinar se é mais fácil escrever "#forasarney"?
Merda de twitter.